Feminismo e gravidez: um diálogo possível.

Esse post tem endereço certo: nós, mulheres, as XX. Então, se você é XY, recomendo que apenas leia e não se manifeste, afinal, nunca passará por nenhuma dessas situações.

E lá vamos nós, tratar de um assunto (ainda) polêmico dentro do feminismo: a gravidez.

Sim, feministas engravidam. Algumas até planejam os filhos (e cai o mito das feminazis abortistas, hein?!)

Mas o que eu quero tratar aqui é a falta de espaços para mamães dentro desse movimento que é tão bonito e tão necessário.

Descobri-me mamãe de primeira viajem a exatas duas semanas. Após duas quedas de pressão, dirigi-me ao hospital e um exame de sangue veio confirmar: G-R-Á-V-I-D-A.

FIQUEI RADIANTE! Sim, é uma criança desejada e que será muito amada pelo papai e pela mamãe.

Então resolvi que precisava contar pras as manas femininjas. E que desagradável surpresa. Os comentários não foram dos melhores.

Isso me fez despertar. Abrir os olhos, na realidade. Vi que mesmos nos espaços majoritariamente femininos, nos locais onde só há mulheres, a gravidez ainda é vista como algo que pára a vida da mulher. Uma doença. Uma coisa ruim. Algo que destrói a vida da mulher.

Não, não vim aqui pregar o mito da gravidez sem problemas. É lógico e evidente que trazer um outro ser ao mundo acarreta em complicações. É lógico que os planos de estudo e carreira agora tem de ser conciliados com as necessidades do bebê. É evidente que, dependendo das circunstâncias em que um gravidez ocorre, é realmente um grande problema.

Mas o caso é que só estando na condição de gestante é que vi a falta de espaço para nós dentro do feminismo.

Apesar de falarmos sobre maternidade compulsória, violência obstetrícia, planejamento familiar e tudo mais, ainda não estamos de todo preparadas para uma mulher-mãe.

E digo isso com certa propriedade. Ainda temos um olhar preconceituoso, de certa forma, em relação a isso. Eu diria que estamos mais preparadas para uma mulher que deseja abortar, do que para a que deseja ter um filho.

E por que? Porque, apesar de nos desconstruirmos todos os dias, a sociedade machista na qual fomos criadas nos transmitiu uma mensagem ruim acerca do que é ser mãe.

No imaginário coletivo – e na realidade de algumas, a bem da verdade – ser mãe é ser dona de casa. Aquela que lava, passa e cozinha. Aquela que abandona estudos e carreira para se dedicar única e exclusivamente ao lar. Aquela que deixa de ter vontade própria e vive para satisfazer os anseios de seus filhos. Literalmente, a vida “acaba” no nascimento do filho.

Infelizmente, essa é a realidade de algumas. E a essas mulheres, toda minha empatia e apoio. Moro na periferia e assisto a essa realidade todos os dias. Inúmeras mulheres, que por não terem apoio e nem poderem optar por não ter os filhos, se vêem dentro de uma casa de palafita com 4, 5 crianças e ela sozinha para dar conta de todas. Saem as 5 da manhã para limpar casa de madame e só retornam as 7, 8 horas da noite. Ou passam o dia limpando a própria casa à espera do marido, que por vezes ainda as maltratam ou traem.

É uma face da moeda que não podemos negar.

Mas há o outro lado. A mulher que deseja ser mãe e planeja esse momento. É com ela que ainda não sabemos lidar, e por vezes ofendemos na nossa falta de empatia.

São realidades opostas. A mulher que planeja a cria, em geral, trabalha ou estuda. Às vezes, trabalha E estuda. É proativa, passa o dia numa correria sem fim. Já possui uma certa independência financeira, uma estabilidade para isso. E mesmo as que não são assim, mas planejam o filho em conjunto com o companheiro. É um momento ímpar na vida das mulheres. E nós, enquanto feministas, devemos dar apoio. O ventre feminista é importante. As manas são importantes.

Ali está sendo gerada uma vida. E que dádiva é gerar uma vida desejada e planejada!

Cada mulher é um potencial revolucionário. Não só para desconstruir outras mulheres, mas para educar diferente uma nova geração. Se, ao invés de tacar pedras, acolhermos todas as mamães, todas as gestantes, se criarmos um ambiente propício à elas, veremos os resultados de nossos esforços ainda mais rápido: uma nova geração de homens e mulheres que aprenderam de suas mamães que o lugar da mulher é onde ela quiser. Que ouviram desde cedo que homens e mulheres tem o mesmo valor. Que tem enraizado dentro de si a empatia, o amor ao próximo, o desejo por equidade e a valorização da figura feminina. Teremos uma sociedade menos desigual, menos violenta com a mulher, mais prazerosa de se viver. Veremos nossas filhas transitarem serelepes pelas ruas da cidade com seu grupinho de amigas altas horas da noite, e sem sentirem-se inseguras por medo de violência sexual. Não teremos medo de deixar nossas filhas viajarem com seus namorados, na certeza de que eles não as agredirão, porque foram educados para isso.

Ah, amigas… Se pudessemos apenas parar por um momento e vislumbrar o grande efeito que nossas atitudes de hoje causarão (ou não) no futuro, seríamos pessoas tão melhores…

Posso estar sendo sonhadora demais. Mas acredito no poder da educação. Acredito que ideais e caráter são transmissíveis. E mais do que tudo: acredito que a revolução feminista inclui mães e filhos.

Acolham as mães. Ajudem as mães. E sigamos juntas, (des)construindo preceitos e conceitos, educando a uma nova geração que, certamente, tornará nossa sociedade um lugar melhor de se viver.

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Sobre ocupar espaços

Essa semana foi de muitas comemorações nas redes sociais. Saiu o resultado do Sisu, e foi muita euforia dos aprovados nos mais diversos cursos, em todas as federais, de todos os cantos do País. Hoje, novamente, muita comemoração com a divulgação do resultado do processo seletivo da única universidade federal de meu Estado.

Gosto de analisar quem são os que comemoram em meu feed. E vi algo em comum: muitas mulheres aprovadas. Muitos negros aprovados. E muita reclamação da classe privilegiada (depois nós é quem somos os vitimistas, vai vendo).

Nesses momentos, paro para refletir historicamente sobre esses fatos – hoje corriqueiros – mas que foram conquistados com muito sangue e suor de nossos antepassados.

Vamos viajar na história comigo por alguns momentos? Vamooooooooooos!

E comecemos por: Elizabeth Eckford.

sobre ocupar espaços 1

No mesmo ano do ataque de Pearl Harbor, 1941, nascia no Arkansas a moça que entraria para a história aos 15 anos.

Uma moça. Negra. No sul. A área mais racista de todo o território estadunidense.

A segregação racial fortíssima, e permita por lei. Negros e brancos não podiam frequentar os mesmos espaços. Estudavam, porém em escolas diferentes. E não é preciso muito esforço mental para saber quem possuía as melhores escolas e professores. Época de Klu Klux Klan, aquela organização de bons cristãos que ateavam fogo na casa de pessoas negras e as matavam. Ótimo lugar para se viver, não é mesmo?

A segregação era tal, ao ponto de local reservado para pessoas brancas dentro dos coletivos. E ainda assim, se um branco entrasse no coletivo e não houvesse mais assentos vazios, o negro deveria ceder seu espaço. Por desobedecer a essa norma é que Rosa Parks foi presa.

Martin Luther King e Malcon X foram dois fortes ícones na luta por direitos civis para a população afro americana, e ainda na atualidade são lembrados por isso.

Em meio a tudo isso, temos Elizabeth. Mas o que essa jovem menina fez de tão especial? Ousou fazer jus a seu direito. Ao completar 15 anos, a segregação racial de alunos foi declarada ilegal pelo Superior Tribunal. E então, em 4 de setembro de 1957, 9 estudantes (e dentre eles, Elizabeth) tentaram entrar na Little Rock Central High School – escola sulista reservada para alunos brancos. Os outro 8 alunos combinaram de ir juntos. Mas Elizabeth não sabia. E foi sozinha. Resultado: foi impedida de entrar por uma multidão, que a insultava. Nenhum deles conseguiu entrar. Dias depois, retornam. Novamente, não conseguem entrar.

Nem mesmo com ordem presidencial expressa para que o governo estadual permita a entrada dos alunos e garanta sua segurança funciona.

Sem alternativas, o presidente Dwight Eisenhower ordena que o Exército escolte os 9 alunos até a escola.

Em resposta, o governador Orval Faubus fecha TODAS as escolas da região durante 1 ano.

Quanto a Elizabeth? Mudou-se para St. Louis no ano seguinte e cursou História. Foi a 1ª afrodescendente a ocupar um cargo “de branco” em um banco. Nos anos 60, tornou-se professora em Little Rock. Hoje, a Little Rock Central High School abriga um museu que registra os eventos racistas e ratifica a sua política contra a discriminação.

Agora vamos sair um pouco da gringa e vir para terras tupiniquins. Com vocês, Enedina Alves Marques:

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Nascida em Curitiba, em 1913, tornou-se a primeira engenheira negra do Brasil. Graduou-se em 1945, pela Universidade Federal do Paraná.

No início de sua carreira, Enedina trabalhou como engenheira fiscal de obras da Secretaria de Viação e Obras Públicas do Estado do Paraná.

Depois, foi chefe de hidráulica, da divisão de estatísticas e do serviço de engenharia da Secretaria de Educação e Cultura; atuou no levantamento topográfico da Usina Capivari Cachoeira, e deixou sua contribuição no levantamento de rios, na construção de pontes e na Usina Parigot de Souza.

Enedina Marques de Souza faleceu em 20 de agosto de 1981 e foi imortalizada ao lado de outras 53 pioneiras do Paraná no Memorial à Mulher, em Curitiba, criado em homenagem a todas as mulheres que lutaram pela melhoria da qualidade de vida de seus descendentes.

“Mas por que tão tarde, já que o direito de mulheres frequentarem universidades foi conquistado em 1879?”. Essa é fácil. Primeiro: patriarcado. Ok, a lei liberou. Mas e a sociedade? Segundo: escravidão. Sobre esse ponto, nem preciso discorrer. Somos um país com um passado escravagista. E daí faz todo o sentido termos cotas hoje: reparação histórica.

Por último, porém não menos importante, quero apresentar-lhes Nilma Lino Gomes:

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Nilma, meus caros, é a primeira reitora negra do Brasil. Empossada em 2013. DOIS MIL E TREZE. D o I s M i L e T r E z E.

Há exatamente 3 anos empossamos uma negra como reitora de uma universidade brasileira.

Nilma graduou-se me pedagogia em 1988, na UFMG. Em 1994, concluiu o mestrado (também na UFMG). Em 2002, concluiu o doutorado em Antropologia Social, pela USP. Presidiu a Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN), de 2004 a 2006. Ainda em 2006, foi para Portugal e fez pós-doutorado em Sociologia, na Universidade de Coimbra. Integrou, de 2010 a 2014, a Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, onde participou da comissão técnica nacional de diversidade para assuntos relacionados à educação dos afro-brasileiros, conciliando isso com a coordenação do Programa de Ações Afirmativas da UFMG. Em abril de 2013, foi nomeada reitora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB). Para complementar o já recheado currículo, foi nomeada pela Presidenta Dilma Rousseff à Ministra da pasta do Ministério da Cidadania – que reúne em si a Secretaria de Política de Promoção da Igualdade Racial, a Secretaria de Direitos Humanos e a Secretaria de Políticas para Mulheres.

Três mulheres diferentes, que viveram em tempos diferentes, tiveram criações e famílias diferentes, mas com algo em comum: ocuparam espaços. Quebraram paradigmas.

Assim como nós, hoje estamos fazendo.

Eu enxergo em cada mulher negra que consegue realizar o sonho de passar em um curso que deseja, um pouco de Elizabeth. Um pouco de Enedina. Um pouco de Nilma.

Vamos em frente, irmãs. Vamos ocupar todos os espaços tomados pelo patriarcado – especialmente o ambiente universitário. Isso é a revolução. Nenhum protesto grita mais alto do que as nossas vitórias cotidianas. Vide o choro branco e elitista nas redes sociais.

Não, as cotas não são injustas.

Não, não estamos roubando o lugar de ninguém.

Estamos retomando o que é nosso por direito.

A largada foi dada. Daqui uns anos veremos o resultado: um mercado de trabalho repleto de mulheres fortes, feministas, lutadoras.

É apenas o início. E se eu fosse o patriarcado, também estaria chorando a essa hora.

 

 

 

Vamos falar sobre abuso?

“Fui abusada”. Essa curta frase marca minha vida desde os 11 anos.

Por muito tempo, evitei falar em público a palavra “abuso”. Havia uma carga emocional extremamente negativa em cima dessa palavra, que imediatamente me transtornava.

Não foi a noite, num beco escuro. Nem foi uma pessoa completamente desconhecida. Na verdade, eram apenas 15 horas de um sábado ensolarado. E eu era apenas uma criança andando tranquilamente pelo centro da cidade.

Não chorei. Não reagi. Não gritei. Fiquei inerte.

E tentei negar para eu mesma que aquilo acontecera.

Me senti suja. Me culpei.

Foi uma das experiências mais terríveis da minha vida. Não apenas da minha, haja vista que, apenas no primeiro trimestre de 2015, houveram cerca de quatro mil denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes. No Estado em que moro, foram 83 denúncias.

E isso são os dados dos casos que chegam a ser denunciados. A maioria permanece no anonimato.

Aos 11 anos, perdi minha infância. Conheci a maldade. Entrei em estado depressivo. Tentei suicídio diversas vezes. E, por fim… Conheci o feminismo.

Aos 11 anos, aprendi que lugar de mulher é onde ela quiser. Conheci milhares de mulheres que sofreram violências semelhantes à minha, e que seguiram em frente. Aprendi que não preciso me submeter a homens. Mas, acima de tudo, o feminismo me mostrou quem eu SOU.

E eu sou mulher. Forte. Guerreira. Dona de mim.

O feminismo me mostrou que eu não era a culpada. E que ser como sou é ok.

Mulheres: não há nada de errado em nós.

O abuso não é o fim de tudo. É doloroso. Muitas lágrimas irão rolar no processo de cura. Mas se ame. Porque eu, sem mesmo te conhecer, te amo. Te amo porque és mulher, e trás dentro de si o sagrado. Porque nascemos condicionadas a submissão, mas rejeitamos esse papel. Porque podemos cair sete vezes, que oito vezes levantaremos. Por tudo isso, eu amo você, leitora desconhecida.

O abuso não é o fim de tudo.

Se ame. Descubra a força que tem. Empodere-se. LUTE.

Somos fortes (e quando unidas, somos imbatíveis).

Eu, mulher negra, (r)existo.

Ser mulher em uma sociedade patriarcal é difícil.

Nem mesmo dentro de nossas próprias casas estamos seguras. 48% das mulheres vitimadas que chegam a realizar denuncia, afirmam que sofreram violência dentro de seus lares.

Não é fácil ser mulher numa sociedade patriarcal.

Porém ser mulher e negra, é outra história.

Porque há uma naturalização do sofrimento da mulher negra. Começando pelo mito de que nós, negras, suportamos mais a dor do que as outras mulheres. Somos mais fortes. Mais resistentes. Suportamos o abandono e a violência. Suportamos o descaso.

Esse pensamento é reflexo de uma sociedade que sobreviver de escravidão por longos anos. Não é desconhecido do grande público que escravas negras eram estupradas, e muitas vezes geravam filhos de seus senhores (e então surgiram os “mulatos”, o que nos leva a outra situação que não retrataremos nesse post). Ainda hoje a lenda da mulher negra forte povoa o imaginário popular.

Mas nós, meus caros, sentimos tanto quanto qualquer outra pessoa. Sentimos dor. Medo. Frio. Desespero. Não somos mais “resistentes”. Não somos mais ou menos fortes do que nenhum outro ser humano.

Nós existimos. E resistimos. E continuaremos a resistir.

Continuaremos a lutar para aparecer. Continuaremos gritando, mesmo que para ouvidos surdos. Um dia ouvirão.

Nós, mulheres negras, (r)existimos. E vamos continuar tomando os espaços e lutando por nosso direitos – inclusive o de sentir. Inclusive o de ser.

A mulher negra é a maior vítima de violência doméstica, e também de violência sexual. Além disso, sofre mais com a violência policial.

Eu sou prova disso. Eu vivo isso. E chegou a hora de expôr o que é ser negra, periférica e feminista.

Se preparem, porque o dedo preto vai tocar as feridas.